Hilton: Uma polémica "novela" longe do fim
Por VALDEMAR PINHEIRO
A polémica “novela” em redor do hotel Hilton, na
Parede, volta a estar na ordem do dia, depois do Ministério Público
junto do Tribunal Administrativo e Fiscal de Sintra propor
uma ação contra a Câmara Municipal de Cascais, a empresa
“Encosta
da Parede” e os credores hipotecários, tendo em vista a declaração
de nulidade de todo o processo de licenciamento e a demolição de
tudo o que foi entretanto construído ou, no mínimo, de 3 dos 7
pisos dos dois edifícios de apartamentos turísticos.
Há, no entanto, novos desenvolvimentos e, segundo Cascais24Horas apurou junto de fontes municipais, o Governo Local de Cascais, agora liderado por Piteira Lopes, vai contestar os argumentos do Ministério Público num processo em que os principais autarcas, então em exercício e com responsabilidades na matéria eram Carlos Carreiras, que propôs a venda do terreno, e Filipa Roseta, vereadora, que deferiu um segundo pedido de licenciamento, depois de um primeiro ter sido indeferido, tendo havido mais tarde um projeto de alterações em obra ao inicial, mas que, ainda segundo apurámos, nada teve a ver com área, pisos, tão somente alterações em obra.
Com uma escala
desproporcional e absolutamente dissonante da paisagem urbana consolidada na
envolvente próxima, o licenciamento do Hotel Hilton poderá violar
as limitações em
altura decorrentes do PDM de Cascais, bem como o domínio público marítimo.
De acordo com a ação
do Ministério Público, a empresa “Encosta da Parede”, proprietária do
Hotel Hilton, terá proposto, em 2025, uma ação contra o Estado Português para
ficar proprietária de uma área abrangida pelo domínio público marítimo.
Além disso, há vários aspetos ainda não esclarecidos nesta situação, designadamente com a totalidade dos benefícios concedidos pela Câmara à “Encosta da Parede” e com as ligações deste licenciamento a financiamentos à Nova SBE.
Recorda-se que, em
2025, aquando das últimas buscas feitas pela Polícia Judiciária
(PJ) à Câmara de Cascais, Carlos Carreiras, então ainda presidente
de Câmara, referiu às televisões que a Câmara tinha
igualmente obrigado o proprietário a doar à Nova SBE 4,1 milhões
de euros, que estão a
ser pagos em tranches, como justificação para o preço de venda do terreno camarário
com 823 m2 vendido, em 2020, por apenas 312.700,00 € e que
presentemente está incluído no terreno do Hilton.
Resta por esclarecer
a que propósito, se o preço da venda do terreno camarário não
tivesse sido mais baixo do que o
devido, iria o proprietário doar mais de 4 milhões de euros a um terceiro, que nada
tinha a ver com o terreno/obra, onde é que isso foi acordado, se foi deliberado em
reunião de câmara e/ou assembleia municipal ou não passou pelos órgãos camarários
competentes.
Por esclarecer está,
ainda, também, o papel que o então Vice-presidente da Câmara de
Cascais e atual ministro das
Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, teve em tudo tudo, sabendo-se que o mesmo liderou
o processo de negociação com o construtor, como resulta dos artigos
publicados nos órgãos de Comunicação Social à época e das
declarações de Carlos Carreiras, que afirmou ser Miguel Pinto Luz o
responsável pelo processo.
A polémica em torno
daquilo que aparenta ser um enorme atentado ambiental para todos os cidadãos,
numa área particularmente sensível, de elevado risco de inundação e de
tsunami, de acordo com a carta de suscetibilidades do concelho,
deverá continuar, tendo como pano de fundo o terreno vendido pelo
preço de 312.700 €.
SOS
Ingleses e Jonet reagem
Entretanto, conhecida publicamente a proposta do Ministério
Público (MP), não tardaram as reações, quer por parte da SOS
Quinta dos Ingleses, quer do movimento
Jonet: Cascais para Viver.
A
SOS Quinta
dos Ingleses–
Associação
Ambiental ONGA, em
comunicado enviado a Cascais24Horas, recorda que “esta ação do
Ministério Público é resultado de uma denúncia (em 8 de setembro
de 2023) da SOS Quinta dos Ingleses, na qual esta ONGA denunciava as
ilegalidades de que entendia padecer esse licenciamento,
designadamente pela violação das normas ambientais e urbanísticas
aplicáveis (PDM de Cascais e Planos de Ordenamento) e por o local
onde está a ser construído o designado “Hotel Hilton” incluir o
terreno com 823 m2 vendido pela Câmara de Cascais à Encosta da
Parede, em 2020, por 312.700,00 €, um valor irrisório para um
terreno situado na frente de mar, em Carcavelos.
Recorda,
igualmente, que as primeiras dúvidas sobre a legalidade da venda, os
termos em que a mesma foi realizada e os benefícios fiscais
(superiores a 2,4 milhões de euros) concedidos pela Câmara de
Cascais à Encosta da Parede, proprietária deste empreendimento,
foram suscitadas (em 2020) pelo então Vereador Clemente Alves, da
CDU. Foi, contudo, com a apresentação da queixa pela SOS Quinta dos
Ingleses que se iniciou a investigação que agora deu azo à
impugnação do licenciamento e ao inquérito ainda em curso, tendo
este motivado diversas buscas à Câmara Municipal e aos serviços
administrativos do Município, como é do conhecimento público”.
“A SOS Quinta dos Ingleses considera também que o facto de aquele
terreno se situar numa zona considerada de elevado risco sísmico, de
o nível do mar estar a subir a um ritmo superior ao cientificamente
previsto, de as alterações climáticas e os fenómenos extremos
estarem a provocar, designadamente, o recuo acelerado da nossa costa
e danos tão elevados (como os que tiveram lugar, este ano, no nosso
País), impunha que a Câmara Municipal de Cascais nunca tivesse
permitido a construção naquela área: a proteção da linha de
costa e do ambiente assim o impunham. O facto de, ainda por cima, a
construção licenciada ser totalmente desproporcionada em termos de
altura e ocupação do solo face à zona edificada envolvente só
reforça essa convicção”, lê-se na nota enviada.
“A área onde estão a ser construídos os 116 apartamentos
turísticos e 67 quartos de hotel deveria, pois, manter-se como área
arborizada com as espécies protegidas que ali existiam antes de se
iniciar a obra. Adicionalmente, a SOS Quinta dos Ingleses espera que
os fundamentos da ação proposta pelo Ministério Público venham a
ser confirmados pelo Tribunal, podendo assim ser revertida a atual
situação, recuperando e regenerando o terreno”, acrescenta a SOS
Quinta dos Ingleses, não sem concluir “esperar,
por fim, que a investigação criminal em curso possa vir rapidamente
a concluir se se verificam ou não os outros motivos de ilegalidade
sobre esta operação imobiliária que esta associação suscitou”.
Também
o movimento Jonet: Cascais para Viver, em comunicado enviado a
Cascais24Horas, revela “preocupação
com este processo e as suas consequências, que serão desastrosas
para
Cascais e para os Cascaenses, independentemente do que venha a ser
decidido em tribunal: a quebra de confiança nas instituições, o
impacto urbanístico e paisagístico já produzido e as eventuais
consequências financeiras para o Munícipio”.
Na
mesma nota, o movimento Jonet, afirma “confiar no funcionamento da
Justiça” e “respeitar o tempo necessário ao apuramento dos
factos e das responsabilidades. Ainda assim, há questões que devem
ser publicamente esclarecidas, em nome da transparência”.
“A
primeira, adianta o comunicado, é a venda, em 2020, ao promotor do
empreendimento, de um terreno municipal com 823 m², por cerca de 300
mil euros, valor este que não é minimamente compatível com os
preços praticados naquela zona à época”.
“A
segunda, lê-se,
ainda, refere-se
ao Plano Diretor Municipal então vigente e demais instrumentos
aplicáveis. O licenciamento desta obra, agora contestado pelo
Ministério Público, enquadra-se nesse PDM? Em caso afirmativo, não
podemos deixar de criticar a permissividade do PDM, como temos feito
em outras ocasiões. Em caso negativo, cabe aferir como é que o
executivo PSD/CDS aprovou uma obra ilegal.
Recordamos
que o mesmo executivo aprovou, em 2019, uma isenção de 2,5M € a
este empreendimento”.
Depois
de “reconhecer
o papel do movimento cívico SOS Quinta dos Ingleses, que teve uma
intervenção particularmente relevante neste processo, ao
acompanhar, documentar e denunciar situações que, pela sua
gravidade, justificam o escrutínio público e o apuramento rigoroso
pelas entidades competentes”, o
movimento Jonet afirma no comunicado “aguardar
a
conclusão do processo em curso” e exige
“total transparência e que sejam apuradas responsabilidades por
mais um ato de gestão que colocou os interesses de quem quer vender
Cascais acima dos interesses de quem quer Cascais para Viver”.
Aguardam-se,
agora, os próximos capítulos da polémica “novela” Hilton.









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